Clube do Rock - Pompa - Crônicas Debochadas

Ir para o conteúdo

Menu principal:

Clube do Rock

CONTOS

Tirar a minha carteira do Clube do Rock 'n Roll não foi tarefa fácil. Passei por uma sabatina de mais de duas horas de duração, onde meus conhecimentos sobre o rock foram testados à exaustão. Perguntaram-me a respeito dos integrantes das bandas, sobre as capas dos discos, sobre as turnês intermináveis e até mesmo a respeito dos solos de guitarra e de bateria e quem eram seus executores. Depois de todo esse questionário, fui finalmente aprovado:

-Aqui está sua carteira de rockeiro, Pompa. Você passou nas provas, disse o diretor do Clube dos Rockeiros.

-Puxa! Obrigado, meu velho.

-E lembre-se: Fora do Rock não há salvação.

-Fora do Rock não há salvação, repeti.

Naquele momento, se me pedissem para concordar que o céu era roxo eu concordaria. Era um sonho dourado ter a carteira de genuíno rockeiro. Porém, logo num dos primeiros encontros do Clube do Rock, escutei um colega falar a primeira vez na palavra "Micareta":

-Um amigo meu foi num evento desses e beijou trinta meninas, Pompa. Trinta!

Foi impossível não prestar atenção naquele número. Eu não havia beijado trinta meninas nem ao longo da minha vida, que dirá num único evento.

-Quem toca nesse lugar? Perguntei a ele.

-Cheiro de amor, ele disse.

-Quero ir.

-O problema é que fora do Rock não há salvação, Pompa. Se pegarem a gente nesses eventos podem nos expulsar do Clube. É música baiana, meu chapa.

-Mas que bobagem, rapaz. Esses rockeiros nem vão ficar sabendo que a gente foi nisso, retruquei.

-Eles são radicais, Pompa.

-E nós também.

Um mês depois eu estava rebolando atrás de um trio elétrico:

"Não há quem resista, a essa sinfonia, tambores e repiques a soar, na magia desse dia de festa, é pra levantar poeira, ficar parado é bobeira". Vai sacudir, vai abalar (Pierre Onassis).

Alguns dias depois da Micareta e de volta ao Clube do Rock

Compareci com a minha tradicional camisa do Metallica novamente à reunião do Clube do Rock. Entre um gole e outro de cerveja, ouvi o presidente do Clube pedir a palavra ao microfone:

-"Estamos aqui hoje reunidos em prol da nossa causa, amigos. Fora do Rock não há salvação".

E todos repetiram: "Fora do Rock não há salvação"!

Nessa hora fiquei na dúvida se eu estava num culto ou numa assembleia do sindicato. E ele prosseguiu:

-Há entre nós um Judas. E não é o Judas Priest*.

Uma certa agitação tomou conta do ambiente e eu tentei sair de fininho, mas me seguraram pelo cabelo. E antes que começassem um linchamento moral, falei:

-Não há mulheres aqui pra todo mundo. Ou vocês se acham atraentes?

Escutei uma vaia, mas prossegui:

-O Rock sempre foi marcado pela rebeldia e pela contestação, pois prefiro o Cheiro do amor ao cheiro do Ozzy Osbourne.
Eles cortaram meu cabelo.

2015

*Judas Priest - Veterana banda inglesa de Heavy Metal.

https://www.youtube.com/watch?v=qcWKZTI9OC4


Com Scott Travis (baterista do Judas Priest)
NO ROCK IN RIO II, com eternos amigos.
 
Voltar para o conteúdo | Voltar para o Menu principal