Caixinhas de Natal - Pompa - Crônicas Debochadas

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Caixinhas de Natal

CONTOS


O Natal é uma época em que temos uma maior tendência de promovermos o bem e a caridade, pois esse foi o exemplo que Cristo nos deixou. Porém, ao incentivarmos muito o nosso espírito natalino, também corremos o risco de nos decepcionarmos.

A História das Caixinhas de Natal

O Natal foi chegando e com ele os pedidos de doações. Eu aproveitei as caixas de coleta de roupas e brinquedos nas portarias da empresa onde eu trabalhava para levar alguns donativos.

Na minha sala do trabalho eu também colaborei. Os servidores fizeram uma vaquinha para as copeiras e eu participei doando quarenta reais. Na mesma manhã, os porteiros também passaram com uma caixinha de Natal e eu doei mais trinta reais.

Na semana do Natal, os pedidos se intensificaram. A diarista da minha casa pediu um reforço para a ceia e eu consenti. O jardineiro do prédio também apareceu pedindo uma caixinha e eu também colaborei. Na padaria que eu frequentava, a balconista ia ainda mais longe. Ela confiscava o troco dos clientes sem nenhum constrangimento e colocava diretamente na caixinha:

-Obrigada, seu Marcelo. Jesus agradece. É o que ela dizia.

No trânsito, o congestionamento já não era de carros, mas de pedintes. Todos eles com uma caixinha nas mãos. Nos supermercados idem e nos restaurantes também. Um verdadeiro exército atrás de um trocado natalino.

Era véspera de Natal e havíamos recebido o décimo terceiro salário. Contudo, a divulgação do pagamento fez com que alguns oportunistas passassem novamente pedindo doações. Foi impossível esquivar-se:

-Nós sabemos que os servidores receberam o décimo terceiro. O senhor não vai negar uma ajudinha, né?

-Claro que não, falei contrariado.

Minha vontade àquela altura dos acontecimentos era de pertencer a religião islâmica. Durante o Ramadã, por exemplo, estaríamos todos praticando o jejum e ninguém estaria me pedindo trocados. Muito pelo contrário, pensei comigo.

Pouco tempo depois, eu olhei para o relógio e o expediente havia chegado ao final. Eu desliguei o computador, apaguei a luz e fechei a porta da seção. E enquanto eu esperava o elevador, mais uma pessoa apareceu pedindo dinheiro. Fiquei chateado com aquilo. Porém, por conta de alguma superstição boba, fiquei com medo de negar uma última ajudinha e ter o meu Natal prejudicado. Foi então que eu falei para o pedinte:

-Um minutinho. Eu vou dar uma olhada na minha carteira.

Eu olhei e percebi que só havia moedas. Entreguei uma delas e falei:

-Bom Natal, Irmão. Vá com Deus.

O rapaz me olhou com ar aborrecido e disse:

-É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha, do que um rico entrar no reino dos céus.

2018
 
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