Amor Virtual - Pompa - Crônicas Debochadas

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Amor Virtual

CONTOS


Escrito pelo mestre Fabrício Carpinejar

Acredito em amor virtual. Não adianta se valer do ceticismo da carne e dizer que a distância engana, que as pessoas não se conhecem, que pode haver desfeita e desilusão.

Acredito em amor virtual. Pois nada é mais expansivo e verdadeiro do que se conhecer pela linguagem. Nada é mais íntimo e pessoal do que se doar pela linguagem.

Não serei convencido da frieza do relacionamento na web, da articulação de fachadas e pseudônimos, da ironia e dos subterfúgios denunciados nos chats.

O que acontece na internet reproduz a vida com seus defeitos e virtudes, não se pode exagerar na desconfiança.

O amor virtual é tão real quanto o sangue. Não preciso enxergar o sangue para verificar se ele corre.

O amor virtual trabalha com a expectativa e a ansiedade. Como um teatro que se faz de improviso, com a ardência de ser aceito aos poucos, sem o temor e os avisos em falso do rosto.

Na correspondência, há a esperança de ser amado e de entreter as dores. A esperança aceita tudo, transforma todo troco em investimento.

Um gesto de redobrada atenção, uma resposta alentada, uma frase diferente, a cordialidade do eco, e o amor se instala.

Não há julgamento pelas aparências (que se assemelha a uma execução sumária), mas o julgamento em função do que se imagina ser, do que se deseja, do que se acredita.

São raros os momentos em que se pode fechar os olhos para adivinhar.

Adivinhar é delicioso – é se dedicar com intensidade às impressões mais do que aos fatos.

Alguns dirão que é alienação permanecer horas e horas teclando ou diante de uma câmera e do computador. Mas é envolvimento, amizade, compromisso. É pressentir o cheiro, formigar os ouvidos, seduzir devagar.

Não conheço paixão que não ofereça mais do que foi pedido.

Quem reclamava de preliminares deve comemorar o amor virtual. Nunca se teve tanta preliminar nas relações, rodeios, educação.

Fica-se excitado por falar. Devolve-se à fala o seu poder encantatório de persuadir.

Afora o espaço democrático: um conversa e o outro responde. Findou o temporal de um perguntar para o outro fingir que está ouvindo.

No amor virtual, a linguagem é o corpo.

Dar a linguagem é entregar o que se tem de mais valioso. É esquecer as roupas na corda para escutar a chuva. É recordar memórias imprevisíveis como do tempo em que se ajudava a mãe a contornar com o garfo a massa do capeletti.

Conversa-se na infância, dos fundos do pátio, do que ainda não se tinha noção, sem ficar ridículo ou catártico.

Abre-se a guarda para olhares demorados nos próprios hábitos.

A autocrítica se converte em humor; a compreensão, em cumplicidade.

É uma distração para concentrar. Uma distração para dentro. Vive-se com mais clareza para contar e narrar.

Amor virtual é conhecer primeiro a letra, para depois conhecer a voz.

A letra é o quarto da voz.

Livro: O Amor Esquece de Começar, Ed.Bertrand Brasil- Pags:143 a 145.

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